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Romance do Tio Abel
Romance do Tio Abel

 

 

Centro de Tradições Gáucha de Uberaba - MG

Cultura Nativa



Poesia: Romance do Tio Abel



 

Nove leitos de hospital,
paredes e rostos alvos...
...e o Cristo crucificado,
olhando – compadecido -
aquele arrastar de cruzes
de miséria e de doença...
...restolhos de tempo antigo
naquele quarto de dores.

 

Pinga o soro endovenoso
em contraponto ao gotejo
de uma sonda intra-uretral...

 

- Eu pareço um surrão furado,
água que botam por riba
sai dereto lá por baxo!

 

E um xistoso e dolorido
sorriso, de meia-boca,
aviva o rosto do Abel.

 

Aquele corpo que outrora
soube agüentar muita lida
de cercado, de mangueira
e de lombo de cavalo,
hoje afocinha no pasto
- no sobre-lombo de um pealo –
de oitenta anos bem postos
que a vida, porteira-a-fora,
vem lhe ajeitando a mangueada
- costeada da “tar da prosta” –
direito à cruz de pau-ferro,
na costa de uma picada.

 

- Por que é que o tar Deus dos branco
faiz isso co’os negro véio?...
...por que é que a morte não veio
no estôro duma rodada?...
- E aquela tropa morruda
que nóis atiremo n’água
no Passo dos Enforcado
- Camaquã de gaio-a-gaio -
e o meu gateado cabano
se entregô pra correnteza...
...não fosse a cola dum tôro
que me cruzô no costado!...
- Por que é que o tar Deus dos branco
não me feiz essa gauchada?...

 

- Morrê não é o bochincho!...
...morrê sozinho é que é!
- Não tive fio o muié
que me ajudasse estas hora.
- E essa mardita demora
em dá co’a cola nas pedra!
- E o neto do patrão véio,
que hoje trabaia no povo,
nessa tar de capitar...
... quando guri, só andava
grudado na mi’as bombacha...
...por que é que o tempo não acha
pra vê os que le pertence?...

 

- Moça, óia aqui...
...o meu braço tá inchando!...

 

A enfermeira... contrariada
com a pouca remuneração,
sem a menor caridade
ou compaixão ao seu próximo,
ainda xinga o negro velho
quando a agulha sai da veia.

 

- Quem será que vai cevá
o mate do meu patrão?...
- Quem será que vai ficá
im riba do fogo grande
pra não dexá isfriá as marca
nos dias de marcação?...
- Quem vai insiná os negrinho
como se encia um cavalo?...
- Quem vai descascá marmelo
e mexe tacho de doce
no calorão do verão?...

 

- Quem vai mostra pros mais novo
o rasto da capinchada
e o sinar das resbalada
nas barranca dos arroio?...
- Quem vai insiná os negrinho
a pialá de bolcado?...
- Quem vai desfazê os mandado
quando a tormenta se enfeia?...
- Quem vai – de garganta cheia -
cantá um chote bem marcado,
fazendo viola e costado
pra cordeona botoneira?...

 

- Quem vai conta pros negrinho
do tempo em que o avô deles
boleava toro aragano,
das gadaria bagual?...
- Quem vai mostrá pros mais novo,
ou pros criado no povo,
que home e cavalo novo
se conhece pelos óio?...
- Tá na hora do remédio,
abre a boca, seu Abel!

 

- Isso é amargo como um fel...
...se, ao menos, viesse um mate!...

 

E um sol ilumina o rosto
desbotado e descarnado,
num sorriso de alegria,
que há muito já não saía
da boca do negro velho.

 

- Trouxe um mate Tio Abel...
...custei um pouco, mas vim...
...acaso o senhor achava
que o seu negrinho mimoso
não ia deitar o toso
pra cuidar do negro velho?

 

- Acaso o senhor pensava
que o seu negro não lembrava
daquele tempo passado,
quando só andava grudado
nas dobras da sua bombacha?

 

- É certo que lhe agradeço
por me ensinar o que sei...
...e se achei rumo na vida
sei de pronto, e com certeza,
que é por saber com clareza:
trago na alma a firmeza
que dos antigos herdei.

 

- Agora sim, Deus dos branco,
que o meu negrinho já veio!...
...agora esse negro veio!...
pode morrê descansado!...
...que os tempo não são os mesmo
e os home tamém não são!...
...mas quem plantô bem-querença
nos cercado da amizade,
colhe amor e leardade
nas safra do coração!

 

 

Autor: Gulherme Collares

 

 

 

 

 

 

 

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