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Recuerdos
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Centro de Tradições Gáucha de Uberaba - MG

Cultura Nativa



Poesia: Recuerdos


AS NUVENS NUM FIM DE TARDE

GALOPARAM PRA O INFINITO.

E EU, MATEANDO SOLITO,

GALOPEI NUM DEVANEIO,

NO PENSAMENTO ME VEIO

RECUERDOS DA MINHA INFÂNCIA,

QUANDO TINHA AQUELA ÂNSIA

DE VER QUERÊNCIAS BEM LONGE,

CONHECER PAGOS SEI ONDE,

DE ENCURTAR AS DISTÂNCIAS.

 

ME VI NO COLO DA MÃE,

DO PAI, DO VÔ E DA VÓ;

OUVI ATÉ O COROCOCÓ

DO MEU GALO GARNISÉ,

A PENA DE CABURÉ

FINCADA NO MEU CHAPÉU;

VI A REGEIRA, O SOVÉU

E UMA GARRA DE PELEGO;

LEMBRANÇA DE UM BORREGO,

QUE ME DEU MUITO BOLÉU.

 

ME VI UM GURI DESCALÇO,

CALÇA CURTA DE TIRANTE,

UMA CINTA DE BARBANTE,

QUE VEIO ATANDO O PACOTE

DE UM FREIO E UM SIRIGOTE,

COMPRADOS DE UM ANDARILHO,

PRA ENCILHAR UM POTRILHO,

DA DOMA DE MEU PADRINHO,

CAVALO FLOR DE MANSINHO;

COMO DEU BUENO O TORDILHO!

 

VI AS CASAS, VI O TERREIRO,

ME VI DENTRO DA MANGUEIRA,

VI A VACA MAIS LEITEIRA,

VI O APOJO NAS CANECAS,

ANGOLISTAS, AS MARRECAS,

VI OS PORCOS E AS GALINHAS,

E A PETIÇA “GAUCHINHA”,

DE ORELHA TESA E LIGEIRA,

QUANDO ESTALAVA A SOITEIRA,

BOTANDO AS VACAS À TARDINHA.

 

ME VI BRACEANDO NO AÇUDE

E PESCANDO LAMBARI,

UM CASAL DE BEM-TE-VIS

CANTANDO DENTRO DA TARDE;

VI OS GANSOS NUM ALARDE,

SE DEMONSTRANDO COM ENTONO,

PRA DIZER QUEM ERA O DONO

DO TERRITÓRIO NAVAL,

NUMA TARDE DIVINAL,

DESSAS QUE FAZEM NO OUTONO.

 

EU VI A ÁGUA DA SANGA,

BEBI NA CONCHA DA MÃO,

SOLTEI OS MEUS PÉS NO CHÃO,

NA TABATINGA VERMELHA;

VI UM ENXAME DE ABELHAS,

NUM OCO SE AQUERENCIANDO;

VI O CARNEIRO MARTELANDO,

MANDANDO ÁGUA PRAS CASAS,

E, NUMA PARTE MAIS RASA,

LAMBARIZINHOS PRATEANDO.

 

ME VI FREQUENTANDO A AULA,

NA ESCOLA MUNICIPAL,

RECÉM BOTANDO O BUÇAL

DAS CONTAS E DO ALFABETO,

SENTADO NUM CANTO, QUIETO,

SEMPRE ATENTO E OBEDIENTE;

E NO QUADRO, LÁ NA FRENTE,

A PROFESSORA MANUELA;

NÃO TINHA ARREGO COM ELA,

QUANDO RALHAVA COM A GENTE,

 

VI O BALCÃO DO BOLICHO

E TAMBÉM VI AS PRATELEIRAS,

VI AS LOUÇAS E CHALEIRAS,

ENXADAS, PÁS E MACHADOS,

PALAS E PONCHOS PENDURADOS,

LAMPEÕES DA MARCA ALADIN,

CHAPÉUS, BOMBACHAS, SELINS,

TECIDOS, LINHAS E RENDAS;

E A GURIA DA VENDA*

QUE EU QUERIA PRA MIM.

* hoje a minha esposa

 

VI A CARRETA NA SOMBRA,

DESCANSANDO NO MUCHACHO;

OVELHAS DEITADAS EMBAIXO

E FOLHAS SECAS POR CIMA;

VI A TERNEIRA BRAZINA,

DE BARBILHA NO FOCINHO;

VI UM CASAL DE CANARINHOS,

NA CASA DO JOÃO-DE-BARRO,

E O VÔ PITANDO UM CIGARRO

DE UM FUMO AMARELINHO.

 

VI MEU PAI JOGANDO BOCHA,

CAMPO A FORA E NA ESTRADA;

ME LEMBREI DE UMA BOCHADA,

QUE ACERTOU NUMA “PERIÁ”;

EU VI O CARAGUATÁ,

QUE A COATIARA SE ESCONDIA;

TAMBÉM VI AS MELANCIAS,

NA LAVOURA DO VIZINHO,

E O CANIVETE FININHO,

QUE AS MAIS MADURAS PARTIA.

 

A INFÂNCIA FOI ME PASSANDO,

COMO UM FILME NA TELA;

VERSO DA VACA AMARELA

E CAUSOS DO MALAZARTE;

OS COMPROMISSOS, AS ARTES

COM OS GURIS DA VIZINHANÇA;

PESCARIAS E MELANÇAS,

E MANGUEIRAS NO TERREIRO,

SENDO O MAIOR FAZENDEIRO,

NA FANTASIA DE CRIANÇA.

 

UM RELINCHO DE CAVALO

ME DESPERTOU, NUM REPENTE.

VIM DE VOLTA AO PRESENTE,

LIMPEI OS OLHOS ESCORRENDO;

SENTI O CORAÇÃO BATENDO,

NUM COMPASSO DIFERENTE;

AS LÁGRIMAS SAEM DA VERTENTE,

QUANDO A SAUDADE NOS BATE,

E AO ENCHER DE NOVO O MATE

A ÁGUA JÁ NÃO ESTAVA MAIS QUENTE!



Autor: Deroci Freitas de Moraes








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